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11/3/2010
Chineses dão o tom na disputa por Belo Monte
Fonte: Valor Econômico

As fornecedoras mundiais de turbinas e equipamentos para usinas hidrelétricas travam uma acirrada batalha nos bastidores dos preparativos para o leilão de Belo Monte, em busca de um contrato superior a R$ 6 bilhões. A hegemonia das europeias Alstom, Voith e Andritz, reunidas em um consórcio fornecedor para Belo Monte liderado pela francesa Alstom, está ameaçada pelas chinesas. Entre os concorrentes estão a Dongfang, que vai estrear no mercado brasileiro quando entregar as primeiras turbinas da hidrelétrica de Jirau, e a Harbin, que está se associando à empresa argentina Impsa para se fortalecer com um parceiro do Mercosul e levar o contrato.

Apesar de não ter tradição no mercado brasileiro, ou mesmo mundial, como têm os europeus, as chinesas têm propostas bem agressivas. O sócio de um dos consórcios que deve disputar o leilão relata que o custo é até 40% menor e que mesmo com investimento em engenharia para garantir a qualidade dos equipamentos a diferença ainda é de 25% a 30%. Em termos de preço, os europeus sabem que não podem competir. Jogam, entretanto, com o fato de possuírem fábricas no Brasil e de pode, assim, prestar melhor assistência técnica. Argumentam ainda que vão gerar empregos e investimentos aqui e não na China.

"A pressão sobre os fornecedores está muito forte", diz o diretor de energia da Alstom, Marcos Costa. "Está fora do razoável, em função da tarifa proposta pelo governo federal (que era R$ 68 e deve ficar em R$ 83) e o nível de rentabilidade está negativo para nós". Costa informa que foram entregues na semana passada as propostas para os dois consórcios: o da Andrade Gutierrez e o da Camargo Corrêa e Odebrecht. O consórcio que une os sócios privados das duas últimas construtoras ainda não está 100% fechado. Já o da Andrade está selado com Vale, Votorantim e Neoenergia. A GDF Suez, que poderia formar um terceiro competidor, chegou a fazer cotação, diz Costa, mas não pediu ainda nenhuma proposta firme.

Por ser uma obra estruturante, e que, portanto, não é realizada todo dia, levar um contrato como esse é indispensável para as companhias que fabricam turbinas e equipamentos. O diretor de energia da Siemens, Newton Duarte, explica que a empresa que ganha um contrato dessa magnitude passa a ter vantagem comercial sobre seus concorrentes pois consegue reduzir seus custos fixos de produção e ser ainda mais competitivo em outros projetos. A Siemens tem uma joint venture com a Voith na parte de fabricação de turbinas, que era até pouco tempo conhecida como Voith-Siemens mas que teve seu nome alterado para Voith Hydro.

"É absolutamente estratégico ganhar Belo Monte", reforça o diretor da Alstom. A empresa, que foi líder no consórcio fornecedor para as usinas de Jirau e Santo Antônio, aumentou suas instalações em Taubaté (SP) já pensando nos projetos como Belo Monte e construiu uma fábrica, com a Bardella, em Porto Velho para produzir equipamentos para as usinas. A fábrica foi montada estrategicamente na capital de Rondônia já se pensando no fornecimento para outras hidrelétricas na Amazônia.

Mas a ameça chinesa não sai da cabeça dos fornecedores instalados no Brasil. "Temos que ter cuidado, pois o chinês aprende português", diz o executivo de uma empresa de equipamentos. "E eles têm muito dinheiro. Estão comprando a África". Não bastasse isso, eles também detêm conhecimento, pois passaram anos aprendendo a tecnologia com outros países. Os chineses da Harbin, por exemplo, passaram meses em Itaipu na década de 90 aprendendo tudo sobre como fazer uma hidrelétrica. Na China, eles têm a maior do mundo, a usina de Três Gargantas.

O grande teste das turbinas chinesas da Dongfang será a usina de Jirau. O contrato para o fornecimento de 18 turbinas tipo bulbo foi assinado no início de 2009 com a concessionária Energia Sustentável do Brasil, que tem como sócios a Suez, Camargo Corrêa, Eletrosul e Chesf. Na época, os chineses ainda ofereceram uma garantia de entrega assegurada por uma fiança do Banco da China. E é um grande teste: a turbina usada em Jirau, do tipo bulbo, com 75 MW, é fabricadas pela primeira vez no mundo.

Já o projeto de Belo Monte poderá ser feito com 16 a 20 turbinas, a depender da capacidade, do tipo francis, que são as mais usadas mundialmente e deverão ter potência de 11 mil MW. Além disso, será construída uma pequena usina com turbinas bulbo.

Os russos também entraram na disputa para fornecer as turbinas, mas os próprios consórcios que vão ao leilão não os veem com força para competir com chineses ou europeus. Na parte de equipamentos para subestações e outros auxiliares, há ainda a coreana Hyundai e o japonesa Toshiba.

Diante dessa competição, e por terem parques industriais no Brasil, os europeus tentam pressionar o governo usando argumentos como carga tributária, custo Brasil e geração de emprego. Se por um lado o governo sabe que são argumentos verdadeiros, também sabe que não pode abrir mão da competição em Belo Monte. E isso não é possível com a formação de um único consórcio fornecedor.

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Financiamento externo poderá ser decisivo.

O que poderia ser uma desvantagem para os chineses na disputa pelo fornecimento de equipamentos da usina de Belo Monte - o empréstimo do BNDES, que apenas financia equipamentos produzidos no Brasil - pode se virar a favor das empresas da China. Se o banco de desenvolvimento brasileiro não for capitalizado, não terá condições de dar o financiamento de 80% do total a ser investido na obra. Com isso, a saída para os consórcios que vão disputar o leilão poderá ser assinar contrato com os chineses, que incluem no pacote o financiamento dos equipamentos por meio do Eximbank chinês.

No ano passado, quando a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou que o investimento total de Belo Monte seria de R$ 16 bilhões, o BNDES também falou que iria financiar até 80% da obra. Mas o banco, pelas regras de Basileia, tem uma limitação para fazer empréstimo a um único empreendimento, que é de R$ 12 bilhões. O valor já representava apenas 75% dos investimentos. Como o valor foi revisto, pela própria EPE, e deve chegar a R$ 20 bilhões, sem a capitalização do banco não será possível cumprir o prometido de financiar até 80%. E isso sem contar que a estimativa das empreiteiras é gastar mais do que os R$ 20 bilhões. O banco foi procurado, mas até o fechamento da edição não concedeu resposta.

O integrante de um dos consórcios conta que sem uma posição clara quanto à capitalização do banco, até o leilão, as condições de preço para a disputa ficam completamente alteradas. Mesmo que algum banco brasileiro esteja disposto a replicar as condições do financiamento do BNDES, como agente repassador, vai cobrar uma taxa de carregamento mais cara para manter um financiamento desse porte em sua carteira de crédito por 30 anos. É por isso que os chineses podem ganhar competitividade extra nessa disputa, já que eles estão dispostos a financiar o contrato de fornecimento que representa um terço do valor total do gasto total de R$ 20 bilhões.

A ideia de comprar os produtos estrangeiros e ter em conjunto o financiamento atrai tanto que algumas empresas que elas chegaram a bater à porta da Aneel com uma proposta inusitada: atrelar 20% da energia vendida no leilão ao dólar, para não terem que incorrer com o custo de hedge. Isso significaria que parte da tarifa seria corrigida pelo dólar, como é a energia de Itaipu. A ideia foi rejeitada pela Aneel.

(Josette Goulart)

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